sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

"DO MUSSEQUE ÁS CENTRALIDADES. COMO CONSTRUIR A HISTÓRIA DE ANGOLA COMO BETÃO"

Patrício Batsikama
In Fórum Internacional de Arquitectura 2014

Por: C. Martinho

Um dos temas mais discutidos e aplaudidos no fórum de arquitectura realizado pela ordem dos arquitectos de Angola em junho do ano transacto , está reflectido acima, cujo prelector foi o Antropólogo e Historiador Patrício Batsikama, que na sua alocução apresentou conceitos e reflexões interessantes sobre os musseques e as centralidades numa visão antropológica.



A sua comunicação baseou-se na sua tese de doutoramento em antropologia  sobre a nação, nacionalidade e nacionalismo, um tema interessante com uma abordagem muito vasto reflectida em 1.014 páginas tendo cansado muito o júri, conforme depoimento do autor.

Segundo o historiador " os musseques são de facto as nossas origens", Musseque segundo ele é onde não há asfalto, tendo afirmado que podem ser definidos três tipos de Musseque: o físico, mental e social.

Para o prelector   existe uma confusão Urbanística, com casas sem rua, sem nada que se verifica na periferia das cidades de Angola, o que geralmente as pessoas pensam que é Musseque, mas segundo o antropólogo  " musseque não é só aquilo, musseque é uma vida, é uma solidariedade fora de sério".

Aconselhou a estar com as pessoas do musseque para ouvir os seus problemas, acordar com eles, e isto ajuda a perceber que musseque e cidade são coisas completamente diferentes, tendo considerado que existe a idéia do musseque físico que está associado aos bairros em volta da cidade, mas existe também um musseque mental.

" As pessoas que vivem no musseque têm um comportamento que é só deles . Eu andei durante quatro anos ouvindo conversas de pessoas vindas do musseque nos táxis colectivos (candogueiros), e as tais conversas não têm limites, não têm metodologia, começa numa conversa vai na outra" tendo considerado tal comportamento como reflexo do musseque.

O antropólogo diz que fez uma pesquisa na Cidade do Kilamba e teve de fingir de maluco, para pesquisar os baldes de lixo, com o objectivo de verificar os hábitos alimentares dos habitantes da urbe, e descobriu verdadeiros   " mussequeiros que vivem na cidade do Kilamba que levaram o musseque mental no Kilamba". Da sua pesquisa constatou que mais de 57% das pessoas que vivem no Kilamba são provenientes do musseque, como Rocha Pinto, Golfe, Cazenga, Bairro Uige, Cacuaco e outros, sendo que cerca de 42% dos habitantes vieram da cidade, como Mutamba, Kinaxixe, alguns de cidades de outras províncias.

Com base nos dados que colheu, o antropólogo conclui que a maioria dos habitantes da cidade do Kilamba vieram do musseque e ao falar com eles descobriu quatro tipo de linguagens . O Dr. Batstsikama considerou que os arquitectos quando projectam " obrigam as pessoas a comportarem-se de uma maneira, uma imposição das suas idéias". O historiador diz que encontrou " vários mundos no Kilamba", reflectidos nas diferentes formas de falar e comportar-se. Para ele seria bom que estes os diferentes mundos tivessem um diálogo, notou que quando a centralidade do Kilamba foi lançada não se pensou no " habitar", nas pessoas que iriam residir naquele local, isto começou na cidade de Luanda e o mesmo comportamento repete-se no Kilamba.

O palestrante considerou  interessante que antes de projectar/construir para as pessoas é preciso falar com elas, perceber a sua capacidade financeira, quais são os seus heróis, o mundo cultural deles, para que depois, quando for projectada uma cidade como Kilamba reservar-se espaços culturais para museus, onde podem ser encontrados referências da música e das artes daqueles povos.

" Angola tem um projecto que é de fortalecer a nação, criar o estado-nação mas isto só acontece quando houver diálogo entre as forças sociais" disse, tendo considerado a necessidade de aceitar a diversidade cultural e lingüística sem discriminação.

O antropólogo revelou que pensa em kicongo depois é que traduz para o português para que o intendam, tendo dito que as vezes pensa que esta a dizer uma coisa e as pessoas percebem outra, tendo mesmo considerado que " não sou lusófono nato", pensa numa língua e traduz para outras, e segundo ele, esta situação influência os seus actos, a sua forma de viver.

" Construir história com betão é metáfora" esclareceu o prelector, tendo defendido que quando lançamos uma centralidade estamos a escrever a nossa história no presente, mas no futuro os nossos actos serão lembrados. A questão é a seguinte: seremos lembrados como quem?

Para concluir o prelector deixou, breves recomendações :
Construir centralidades com personalidade urbana tendo em conta dinâmica que representa, de análise e abertura. Construir centralidades funcionais para que quem estiver lá a viver sinta que ela é funcional para ele, com escolas. A arte é fundamental, as crianças aprendem melhor quando na escola, creche ou centro infantil há referências da sua cultura, do seu  kimbo, estudando estas vertentes que considera fundamental.

Segundo o antropólogo o problema está no facto dos arquitectos pensarem numa língua, num suporte cultural diferente e exigirem que pessoas que pensam de outra forma ajam da mesma maneira. Para efeito é importante criar ferramentas institucionais culturais que levem em conta os habitantes com os seus hábitos e costumes.

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