sexta-feira, 19 de junho de 2015

CONVERSA INTERESSANTE COM O ARQº. MIGUEL AMADO



“ADVOGO QUE AS CENTRALIDADES SEJAM NÚCLEOS URBANOS E TENHAM VIDA PRÓPRIA”
Arq. Miguel Amado
No fim da formação avançada sobre estratégias de instrumentos de Ordenamento do Território que aconteceu em Luanda de 8-12 de Junho, tivemos a oportunidade de conversar descontraidamente com o Dr. Arqº. Miguel Amado que foi o coordenador do curso, um profissional de vasta experiência na academia, pela Universidade Nova de Lisboa e que está envolvido em estudos e elaboração de planos
para várias cidades no mundo incluindo Luanda;

Na sua abordagem bastante concisa e objectiva, Miguel Amado demonstra que conhece bem o território, ao tocar em temas como a mobilidade que considera um caos em Luanda, algumas centralidades urbanas no País que, para ele são monofuncionais, o musseque que na sua opinião não deve ser estigmatizado, o ensino da arquitectura que precisa ser adequado às necessidades do mercado de trabalho e outros assuntos pertinentes, em que analisa os factos e aponta possíveis soluções;

Por: C. Martinho

Como avalia a pertinência deste ciclo de formação promovido pela Teixeira Duarte e que envolve a Universidade Nova de Lisboa e a Universidade Agostinho Neto, sobretudo para arquitectos e engenheiros que lidam com o planeamento territorial e urbano?

Este ciclo de formação para ser desenvolvido aqui no reforço das competências institucionais e técnicas dos formandos nesta área do ordenamento do território, urbanismo e infra-estruturas, de facto, foi muito importante. O que acontece é que por ter sido desenvolvido este programa tentou-se fazer uma colecção de boas práticas desenvolvidas anteriormente nas diferentes universidades onde tenho vindo a colaborar, e tentar transpor pela prática que desenvolvo desde 2009 aqui com o Estado de Angola, e fazer este quadro de relação, e este ciclo que foi estudar na primeira fase Ordenamento do Território, segunda fase Projecto de Urbanismo e a terceira fase vai acontecer no mês que vem infra-estruturas e sua gestão, que é determinante para o futuro das sociedades e das suas actividades económicas e depois o quarto módulo que está previsto para Outubro, na gestão do ambiente e na protecção dos recursos naturais;
                                                  Formação em Ordenamento do território no Centro em Luanda

Enquanto académico, como encara a formação do arquitecto para os desafios do planeamento urbano e do ordenamento do território? Pelos conteúdos curriculares das escolas de arquitectura, há questões que se levantam e há que intenda que o arquitecto não esteja preparado para lidar, na prática, com a complexidade do planeamento urbano e o ordenamento do território….

É verdade, na academia nós temos, de facto, uma abordagem um bocadinho diferente daquilo que seria natural, a abordagem epistemológica permitia-nos que tivéssemos a teoria e a prática em separado e a academia tem vindo a focar-se mais na parte da teoria deixando um pouco a questão prática para depois da formação. Ora, hoje em dia as sociedades não acomodam gente sem prática, quem tem que gerar e tem que fazer acontecer actividades económicas precisa de trabalhadores com experiência, logo a formação tem que ser também diferente.

Normalmente o arquitecto tem a concepção da escola de belas artes, os grandes edifícios, as grandes teorias, a composição arquitectónica que é importante para a criação do objecto arquitectónico em si, mas nós queremos também que estes objectos arquitectónicos funcionem integrados num contexto que é a cidade, portanto, o urbanismo faz parte da própria arquitectura, as cidades fazem parte…

…Em Portugal há cursos de urbanismo separados da arquitectura, não defende esta linha?

Defendo a integração, ou seja, não é possível dissociar, se o arquitecto não souber como funciona a cidade não sabe fazer um bom edifício para a cidade, faz um edifício por si só, para o seu programa para aquela função e depois o contexto e a sua realidade às vezes é dissuasor de que ele seja implantado neste ou naquele sítio, portanto, nós precisamos trabalhar com as cidades….

A ideia do arquitecto da cidade…

Exactamente, o arquitecto como elemento, mas ao mesmo tempo integrar com as infra-estruturas e com tudo o resto, porque hoje em dia tudo interage uma coisa com outra, portanto temos que fazer com que os novos arquitectos na nossa academia/universidade poupem tempo e o poupar tempo é ter uma formação mais dirigida, mais orientativa mas ao mesmo tempo englobante, ou seja, lidar com as incertezas e dar-lhe competências para poderem estudar sozinhos também;

Falando nisso, hoje o urbanismo e o ordenamento do território defendem muito a ideia da multifuncionalidade e a cidade compacta, sei que está envolvido em planos para a cidade de Luanda, como vê estes conceitos com as questões socioculturais, do angolano que gosta do quintal e a necessidade de verticalizar?

Temos que verticalizar porque precisamos de espaço. Nós não podemos pensar que hoje temos um País muito grande (14 vezes maior que Portugal) e portanto não falta-nos território, falta território sempre no sentido de longo prazo, da sustentabilidade. Portanto, precisamos de compactar a cidade, precisamos de verticalizar onde ela pode ser verticalizada, mas também precisamos de ter uma descompressão à medida que nos aproximamos da transição para o espaço rural. Para isso nós precisamos primeiro de um ordenamento do território, uma determinação dos núcleos com vida própria, não só centros funcionais, mas núcleos onde as pessoas vivam, trabalhem e possam ter as suas actividades de lazer, onde se possam complementar com a diversidade e com a complementaridade entre os diferentes centros que compõem uma região como esta, aqui o caso de Luanda, de maneira que haja esta diversidade, esta oferta, para isso o angolano não é diferente de outro País, é uma pessoa como outra, que teve uma experiência de vida e um processo de aculturação também próprio, em que nós temos que retomar as tradições e aproveitando, recriando, adequando à tecnologia de hoje. Já não vamos construir casas como vocês (angolanos) construíram no passado ou como os chineses ou portugueses construíram no passado, hoje fazemos casas para as gerações que hão-de vir, que vão morar de maneira diferente da nossa;

Falou em sustentabilidade, sei que tem escrito bastante e falado em fóruns sobre cidades sustentáveis e inteligentes. Olhando para Luanda, como encara a perspectiva de uma cidade sustentável, o desafio da transformação urbana…

É possível, não há missões impossíveis. Portanto, aquilo que eu considero é que a primeira necessidade é esvaziar a pressão no centro de Luanda, para isso temos de deslocalizar algumas actividades mas isto só acontece se tivermos boa mobilidade, e a mobilidade não pode ser "porque aqui temos petróleo podemos andar com o nosso automóvel", nós precisamos apostar em transportes colectivos públicos, em que a pessoa tenha regularidade no transporte e certeza do tempo de trajecto e conforto para que aceite esta deslocalização da pressão, ou seja, grandes polos de actividades económicas possam estar fora, porque estes geram emprego e isto gera a procura da habitação, a proximidade de morar ao pé do trabalho mas tem que ser complementarizada com a questão dos equipamentos e espaços verdes.

Portanto é possível criar sustentabilidade, proporcionando um bom regulamento dos planos, uma boa hierarquização dos índices e alguma flexibilidade, porque a gestão das cidades pode ser o problema de amanhã, hoje estamos preocupados com o planeamento, depois quem gere? E os recursos? E quem recebe, quem paga e quem tem direito a ser servido? Aí o planeamento tem que ser feito de uma forma regressiva, como é que eu quero gerir isto no futuro e qual é o nível de desempenho que quero alcançar, para saber como é que tenho que planear hoje;

Uma questão preocupante está relacionada com as assimetrias regionais e qualquer plano que se faça para Luanda ou Viana, a preocupação é sempre se isso não será um atractivo para acentuar ainda mais o êxodo das populações do interior do País para o grande centro urbano que é Luanda. Como atenuar esta tendência?

Vocês (angolanos) têm um plano muito bom, que é o Programa Nacional de Habitação-PNH. O PNH e as novas centralidades em cada um dos municípios e províncias em todo o País, ao fixar novos objectivos de habitação, novos objectivos de actividades, gerarem empregos, vai criar alguma homogeneidade na ocupação do território. Ora, Viana, Luanda, Belas, ou outro tipo de território mesmo Quissama, pode ser um factor de complementaridade e não só de atractividade. A atractividade tem que existir, as pessoas vão à procura do emprego mas se com este Programa Nacional o promovermos, faremos com que as pessoas tenham condições para que, quem hoje mora num musseque muito degradado com má habitação, preferira voltar à sua origem num ambiente rural, ter qualidade de vida e as mesmas oportunidades, porque a informática, internet e os transportes vão permitir que a pessoa esteja lá e venha à cidade quando for preciso;

E esta é a questão que isso levanta: como desenvolver o espaço rural sem transforma-lo em urbano com os problemas que as cidades têm?

Com os planos sectoriais de Ordenamento do Território e sectorial porque o desenvolvimento regional ou rural pode ser um factor desde que tenha a sustentabilidade enquanto elemento vector, ou seja, a sustentabilidade é pensarmos a longo prazo com durabilidade nas acções, portanto temos que criar não acções de consumo imediato, como ir ao supermercado, mas sim plantar a semente, esperar que ela germine e depois colher o fruto no futuro e portanto temos que ver à longo prazo e o território é a longo prazo, já cá estava antes de nós e vai continuar depois de nós. Portanto, nós temos que ter terreno para plantar batatas, temos que ter território que seja atractivo;

O Arqº. Helder José dizia, na sua comunicação, que as cidades também adoecem e uma patologia urbana diagnosticada em Luanda tem a ver com a mobilidade. Qual é a sua sensibilidade sobre o assunto e quando se fala em mobilidade em Luanda o que lhe ocorre à mente?

O caos. A mobilidade em Luanda é um caos, não é um caso perdido nem é uma luta que não se consiga resolver e ganhar, ela tem que ser vista a longo prazo e no sentido da estruturação também do território. Onde é que eu devo investir primeiramente para poder satisfazer objectivos de longo prazo e não resolver coisas de curto prazo? Nós temos que plantar agora para ir buscar mais à frente, apesar de ser uma emergência esta mobilidade, nós podemos fazer pequenas acções estruturadas com um planeamento estratégico de longo prazo, para onde é que eu quero ir e todos os passos em todos investimentos e acções são induzidos a caminhar para o mesmo objectivo, é isso que deve ser feito, é possível, mas é questão de investirmos em nós intermodais, investir em transportes públicos colectivos, que são de facto importantes. Há alguns sectores que precisam sempre de investimento do Estado mas podem ter exploração privada, isto torna-os mais competitivos, tem que arranjar os seus clientes e manter-se competentes, o Estado investe nas infra-estruturas, concessiona e os outros aproveitam na sua exploração mas mantendo um serviço público da mobilidade, isso pode ser o vector com diferentes hierarquias, claro que as receitas não são todas iguais, mas nós temos aqui terra, ar e mar, portanto nós podemos criar uma complementaridade de mobilidade e essa complementaridade tem que ser articulada;
Trânsito caótico em Luanda(Fonte: Google image)

E como olha para os sistemas de transportes públicos como BRT ou MRT? O BRT está a ser experimentado em muitas cidades do mundo, como analisa a sua possível implementação em Luanda?

O BRT é bom. Este plano que a Empresa SURBANA elaborou, está estruturado para todo Município do Cazenga neste sentido e portanto deve ser incentivado, porque está bem estruturado e funciona, portanto apanha todos os extractos sociais da população e ao termos os mesmos extractos sociais e outros diferenciados a partilhar os mesmos veículos nós temos uma qualificação do transporte, e vai nos dar alguma segurança não só da mobilidade mas a segurança da integração social, que é o que nós precisamos também, porque se segregarmos ainda mais, daqui a pouco não conseguimos andar na rua a qualquer hora do dia;
BRT em Curitiba, um transporte colectivo de qualidade(Fonte: Google)
 

Embora isso implicará, no caso da Luanda consolidada "algum sangue", como diz o arquitecto…

Sim algum "sangue" (sacrifício), por isso faz-se aquela metodologia que tive a oportunidade de apresentar ontem, em que é possível fazer cidade através da articulação de interesses, com trabalho exaustivo de campo. Mas vocês têm o GTRUCS que faz isso com muita qualidade e portanto, podemos e podem vocês cá criar vários "GTRUCS". Os Países passam por isso, a seguir a guerra e quando houve as revoluções foi preciso dar apoio às localidades, foram pequenos gabinetes técnicos, pequenas iniciativas, é o que nós fazemos, o meu grupo de investigação, somos públicos (sector do Estado) é o que fazemos em outros Países nas diferentes municipalidades, ajuda a criar estas competências para depois "voarem" sozinhos. Não sabemos tudo, também aprendemos com os outros e aprendemos localmente;  

Olhando para a história de Luanda ela tem uma trajectória de muitos planos elaborados e que não foram aprovados. Dez anos depois da publicação da Lei de Ordenamento do Território e Urbanismo, temos poucos registos de Planos aprovados ou implementados quer antes quer depois da independência de Angola, que leitura faz sobre isso?

Antes da independência também houve muitos planos porque os bons arquitectos/urbanistas vinham para aqui para as colónias a fazer aquilo que o regime não deixava fazer, o regime era muito castrador e não deixava aplicar teoria e conceitos, existem mutos planos em todas colonias ocupadas pelos portugueses e portanto aí nós podemos aprender com o passado. O facto de os planos não terem sido aprovados, tem a ver com os interesses e os contextos políticos, mas aqui, agora estas novas Leis de bases precisam de uma estrutura clara de hierarquia, de competências e de responsabilização, e entenda-se na responsabilização, quem tem que implementar, quem tem que avaliar e quem tem que monitorar e isto é importantíssimo que aconteça de uma forma clara.

Há técnicos muito bons cá, e vimos nestas duas formações que realizamos aqui, há gente muito competente e informada que podemos aproveitar para estruturar esta nova organização, e é bom, em todas formações que têm sido realizadas cá quase 50% dos formadores são locais, quer dizer que a competência já cá está… às vezes falta pôr mais a academia envolvida, precisamos de formar os alunos ainda mais cedo com maior base;

Hoje quando se aborda o urbanismo cá e não só, fala-se muito das centralidades urbanas e o seu conceito às vezes confunde-se com a verticalização. Qual é o seu conceito de centralidade urbana?

Uma centralidade tem que ser vista como um ponto central onde conflui, converge e diverge interesses, pessoas e actividades. Aquilo que eu advogo é que essas centralidades sejam antes núcleos, tenham vida própria. Uma centralidade de escritórios, de serviços, de actividades económicas que não tenha gente a dormir, não tenha gente a viver e usar os espaços públicos está condenada a curto prazo. Nós precisamos, porque as empresas grandes vêm e vão, e as pequenas quando as grandes vão, morrem portanto nós precisamos de gente que viva e crie espaços que tenham vida própria. As novas centralidades devem ser novos núcleos urbanos, que tenha gente própria, gente da terra, que venha, que se aproprie e que vista a camisola;
Cidade do Kilamba, uma centralidade urbana.
 
 
E que avaliação que faz das nossas "novas centralidades"?  

Precisam ser mais densificadas, ou seja, trabalhadas, quase que revisitar outra vez o plano, como há pouco falei de revisitação a unidade de vizinhança, como é que estes planos foram pensados e como é que os podemos auxiliar e adaptar aquilo que vai ser a necessidade do futuro, porque nós conhecemos algumas das vossas "centralidades" monofuncionais, eu vou morar longe e venho trabalhar ainda mais longe, e não faz sentido, aquilo que gasto em energia, em qualidade de vida, em horas não dormidas, em combustível, tudo isto não faz sentido;
 
   
        Centralidade do Zango, Viana(Foto: C. Martinho)
Ouvi-o a falar de Corbusier e sua abordagem do planeamento urbano, os seus conceitos e ideias nos anos 30, faz uma apreciação crítica por um lado e positiva por outro, que comentário se oferece a fazer sobre a obra de Le Corbusier?  

Gosto muito de estudar e continuar a voltar a estudar o trabalho de Corbusier enquanto elemento dinamizador dos CIAM (Congresso Internacional de Arquitectura Moderna), é de facto um pensamento diferente, estruturado e muito organizado, a mecanização e industrialização do processo num contexto também da arts and crafts, com grandes equipas, a maneira como estudavam a arquitectura e a cidade não havendo uma dissociação clara, é muito importante. Depois disso se pensarmos nesse movimento moderno e colocarmos lá em cima a parte da sustentabilidade e do desenvolvimento sustentável nós passamos a ter um novo produto, e esse novo produto é uma nova modernidade reinventada, o nome não sabemos, toda gente hoje chama desenvolvimento sustentável para tudo, pode ser, mas é preciso perceber a sustentabilidade e o seu poder, não como um argumento político, portanto nós temos que entender o contexto que lá está, é preciso desconstruir a palavra, é preciso desconstruir as acções que temos que integrar no tal planeamento estratégico, voltar a ir rebuscar o racionalismo, o funcionalismos, todas estas ideias e desconstruir recriando o novo; 

O musseque é um tema que gera reacções diversas e até controvérsia, uns defendem-no como património, outros têm opiniões contrárias. Como vê o musseque enquanto ocupação informal estruturada ou não estruturada?

Eu acho que o musseque não deve ser estigmatizado, não há mal nenhum haver bairros informais desde que as pessoas que lá moram tenham qualidade de vida, portanto nós temos que aprender a estudar o musseque e tentar ajudar a reestrutura-lo criando condições, acabando com a precariedade da habitação, dando-lhe qualidade e salubridade, acesso às infra-estruturas porque pode vir a ser factor de atractividade, mas ele também pode em algumas partes ser completamente regenerado, dar lugar a outro tipo de funções que possam alimentar o tal sistema de transportes colectivos e que possam ter particularidades. Qual é a cidade europeia que não tem uma chinatown? E a China não é na Europa, eles recriam. Qual é a cidade europeia ou norte-americana que não tenha o seu casco inicial de gestão e porquê que aqui vamos estigmatizar isso?
   
        Musseque de Luanda(Fonte: Google image)
Nesta série de conversas com arquitectos, temos vindo a falar de um tema relacionado com o musseque, que recentemente Ângela Mingas voltou a levantar num workshop, que é sobre "arquitectura sem arquitectos"….

Exactamente, acho que é importante estudar porque aprendemos, Ângela Mingas neste seu trabalho faz uma investigação que pode ser importante para percebemos como é que as pessoas sem o arquitecto conseguiram construir e como é que a feitura da arquitectura, hoje que já temos este conhecimento, sem arquitectos pode destruir;

Esta "arquitectura" tem valor?...

Uma tem valor pela sua génese, o seu empirismo, a sua iniciativa, o processo cultural, e outra é pela promiscuidade doutras actividades profissionais a fazer arquitectura que devia ser mais protegida para o arquitecto que estuda, que é humano, que estuda sociologia, que estuda a maneira das actividades se desenvolverem, é a tal coisa " arquitectura sem arquitectos" tanto pode ser boa como pode ser um grande perigo, mas quanto mais cedo as sociedades estruturarem as funções e as competências para as aproveitar exigindo que as academias formem bem os seus técnicos o produto final é melhor;

Com certeza conhece Viana e sabe que tem um plano director concluído à espera de aprovação, julgo que conhece o documento. Olhando para Viana, a sua contiguidade com a zona metropolitana de Luanda, as potencialidades e fraquezas que tem, como perspectiva o futuro urbano deste território? 

Eu penso que Viana vai ser o segundo pólo da grande Província de Luanda. Temos problemas ambientais conhecidos, a "lixeira" (aterro sanitário) dos Munlevos é preciso ter cuidado com isso, os efeitos a longo prazo de uma "lixeira" durante muitos anos pode ser um problema ambiental, temos que começar a tratar, ele está acomodado e reconhecido no PDM de Viana, um PDM que está bem estruturado, parece-me a mim (eu que elaboro e trabalho em Planos Directores Municipais há muitos anos noutros Países) um documento que faz sentido, há necessidade de começar a regulamentar com alguns índices, algumas quantificações, ou seja, a flexibilidade é importante mas quando não é bem utilizada pode ser uma ingovernabilidade e portanto nós precisamos de ver a luz ao fundo do túnel, saber claramente além de visão estratégica, quais são os objectivos que quero alcançar, e se calhar alguma quantificação não faz mal à ninguém, não restringe, apenas obriga-nos a trabalhar mais para os atingir melhor;        

sexta-feira, 8 de maio de 2015

UM ANO DE “ CONVERSAS COM ARQUITECTOS”;


Por: C. Martinho
Em Abril de 2014 começamos um projecto informal que designamos “conversa com arquitectos” cujo objectivo foi auscultar os vários profissionais da arquitectura e urbanismo, visando a partilha de informações/conhecimentos nestes domínios, tendo como justificação a ausência de revistas especializadas e programas nos órgãos de difusão massiva em Angola, que abordassem tais temáticas. Na verdade sentíamos na altura, e ainda sentimos, um vazio grande na publicação e divulgação de factos, projectos, estudos e reflexões em matéria de arquitectura nas várias escalas, desde o edifício/cidade ao território, um tipo de “ignorância da arquitectura” como a que se referia o crítico italiano Bruno Zavi no desabafo do seu célebre livro “Saber ver a arquitectura”.

Todavia, esta ideia não foi concebida do laboratório, teve como centelha/chama, talvez um ponto de partida incidental, numa declaração “bombástica” do jovem arquitecto Samuel Domingos, que num belo dia em Abril do ano passado apareceu no atelier da ACRIMAR e proclamou aos quatro ventos: “Sou o Melhor Arquitecto de Viana”. Com a anuência do autor, o Jovem Fábio Martinho gravou em vídeo o depoimento de Don Samu que foi partilhado, vindo a evoluir para uma conversa gravada conduzida por ele e Jordão Alves, jovens projectistas da ACRIMAR e estudantes de arquitectura. A “entrevista” foi publicada na página do Facebook do Gabinete e mereceu várias reacções/comentários de arquitectos, engenheiros, estudantes e outras sensibilidades da sociedade cibernética Luandense ligada a arquitectura e não só;

Ora, com o alcance, apesar da polémica que a primeira experiência teve, algumas vozes sugeriram a ideia de levar avante a iniciativa pelo interesse que os profissionais e estudantes de arquitectura demonstraram e então fizemos uma segunda conversa conduzida pelos mesmos “entrevistadores”, sob a nossa supervisão e ouvimos o jovem arquitecto Zé Martinho e seguiu-se o Arq. Ilidio Daio, este entrevistado pelos manos Z e C. Martinho daí em diante a coisa começou a ficar mais séria e ouvimos outros jovens arquitectos e nomes mais conceituados, os colossos da nossa praça incluindo um renomado arquitecto brasileiro. Elencamos abaixo em ordem cronológica a sequência das conversas com arquitectos, divididas geralmente em duas partes, cujos títulos são da responsabilidade da ACRIMAR:

1.       SAMUEL DOMINGOS (DON SAMU), Abril de 2014, títulos: “Sou o melhor arquitecto de Viana” e “ Se me derem oportunidade, farei o mesmo que os grandes arquitectos de nível mundial";
Arq. Samuel Domingos «Don Samu»:  "Le Corbusier não era arquitecto,... posso considerar que ele foi um gênio"

2.       ZÉ MARTINHO, Abril de 2014, títulos: “Em arquitectura temos de aprender a estudar e procurar soluções para os problemas locais” e “As obras de arquitectura não devem ser meros abrigos, mas arte associa-se à arquitectura como um condimento, não é a base”;
            Arq. Zé Martinho: "Não sou uma pessoa que se define pelos critérios da maioria"

3.      ILÍDIO DÁIO, Maio/14, títulos: “Pratica-se o urbanismo e não o planeamento urbano. Há necessidade premente de harmonização e adequação das intervenções urbanísticas ” e “Em Angola em termos de arquitectura, há poucos bons exemplos”;
 






 Arq. Ilidio Daio: Há ausência total dos arquitectos angolanos, ausência das obras dos arquitectos na criação destas centralidades,



 
   4.       JOSÉ MANECO BUNDA, Junho/2014, título: É preciso encostar à parede aqueles que exercem a profissão de arquitecto sem estar inscritos na Ordem”;

5.       VALDIMIRO NETO, Junho/14: “O Zango é um exemplo bonito de musseque urbano”
                        "Luanda está a ser um péssimo exemplo para as outras províncias", Arq. Valdimiro Neto
            
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Arq. José Maneco Bunda: "Quando  projectamo às vezes somos um pouco egoístas"                                

6.       MARIA TELES GRILO, Novembro/14 “Hoje nós não fazemos arquitectura” e “O modernismo é dos movimentos mundiais mais importantes do mundo”;
 
                                          "Os arquitectos estão perigosamente preocupados com a forma" 
                                                                                                                             Arq. Maria João T. Grilo 
 
7.       PEDRO NETO, Dezembro/14, “Há boa arquitectura no musseque, mesmo sem arquitectos” e “Em urbanismo não existe largo das escolas, é um erro que provoca desurbanização”;
                                   
Arq. Pedro Neto "Homem": "O que mais me apaixona em arquitectura não é a função, é a forma"

8.       JAIME LERNER, Janeiro/15, titulo: “ O carro é o cigarro do futuro”;

Arq. Jaime Lerner: "BRT não é só faixa exclusiva, não é uma coisa isolada"
 
9.      VICTOR LIONEL, Janeiro/15, título: Quem não está inscrito e exerce a profissão de arquitecto é ilegal /criminoso e “Aqui confunde-se muito, arquitectura e indústria”;
                                       Arq. Victor Lionel:  "Temos o hábito de pensar que as instituições não nos pertencem, a Ordem  somos todos nós"

10.  ÂNGELA MINGAS, Janeiro/15, títulos: “O nosso ensino da arquitectura é neocolonial” e “ Luanda é uma não cidade em colapso ambiental”;

Arq. Ângela Mingas: "Gosto de Zaha Hadid,  mas acho do ponto de vista estético ....  eu deixo-me seduzir mais pela obra de Issa Diabaté, de Luyanda Mpahlwa....Francis Kere"
 
11.  FILOMENA DO ESPIRITO SANTO, Fevereiro/15, títulos: “A grandiosidade não se mede só pela dimensão das coisas”, “ Se não responde às exigências e costumes locais não é boa arquitectura” e “ As nossas escolas de arquitectura têm um pendor de planeamento urbano muito «ao de leve» ”;
                                       Arq. Filomena Espirito Santo:  " Apenas imagem não chega, é preciso ter funcionalidade"

Estas conversas informais permitiram tirar ilações sobre o que os jovens e os “monstros sagrados” da arquitectura Angolana pensam; Para além daquelas que elencamos que são da nossa responsabilidade, fomos aos arquivos dispersos para retomar, digitalizar e trazer ao público por via do nosso site, blog e pagina nas redes sociais, várias entrevistas publicadas em jornais, de arquitectos de referência como Troufa Real, Simões Lopes de Carvalho, Manuela da Fonte, Ângela Mingas e Bento Soito. Temos vindo a cobrir factos e publicar pronunciamentos de arquitectos, urbanistas e engenheiros em fóruns que vão acontecendo por Angola e pelo mundo, com o auxílio dos nossos colaboradores;  

 
Pretendemos nas próximas oportunidades conversar com arquitectos já contactados como António Gameiro, Pedro Maiembe, Chico Zé e Manuela da Fonte em Portugal. Temos a ideia de promover uma mesa redonda com alguns entrevistados e se os recursos permitirem, publicar um “livreto” que traria o essencial das conversas. Cogitamos a possibilidade de publicar extractos dos vídeos das conversas.

Temos recebido apoio institucional e encorajamento da Ordem dos Arquitectos de Angola, Universidade Lusiada de Angola, Universidade Agostinho Neto e outras instituições públicas e privadas, bem como pessoas individuais à quem agradecemos mui sinceramente, especialmente os ilustres arquitectos que abraçaram a nossa odisseia. É o pouco do muito que gostaríamos fazer pela arquitectura, a cidade, o território e a sociedade. Aguardamos pelas vossas sugestões;

terça-feira, 5 de maio de 2015

Conversa com a arquitecta Filomena do Espírito Santo (Parte 3)

 
" AS NOSSAS ESCOLAS DE ARQUITECTURA TÊM UM PENDOR DE PLANEAMENTO URBANO MUITO «AO DE LEVE»"

    Arq. Filomena Espirito Santo(Foto: J. Alves)

Nesta ultima parte da longa conversa que com a arquitecta Filomena Espirito Santo abordamos o tema "arquitectura popular" cujo conceito ela própria diz que precisa ser investigado. A nossa interlocutora diz algumas  verdades sobre as insuficiências do nosso ensino da arquitectura, sem deixar de falar sobre Vasco Vieira da Costa com quem trabalhou e revela um pouco do seu caracter como pessoa; 
Por: C. Martinho

Noto que revela alguma preocupação em relação ao que chama " arquitectura popular". Seria bom definir o que é a arquitectura popular, para conhecimento dos nossos leitores.
Eu também não sei, não sabemos o que é "Arquitectura Popular", por isso é que estamos a organizar o dossier  do inquérito. É algo complexo do ponto de vista da logística, porque para visitar as Províncias todas do Pais é preciso ter uma logística organizada,  já falamos numa das reuniões que houve aqui com o Senhor Ministro da Administração  do território porque exige contacto com as autoridades tradicionais, é um projecto que gostaríamos de convidar e congregar o máximo de pessoas possíveis para conseguir resultados.

Nota-se, da parte dos arquitectos, a preocupação em ir buscar aquilo que se pode chamar  "arquitectura popular", "arquitectura sem arquitectos" ou tradicional para estudar! Esta arquitectura é feita por pessoas sem formação/licenciaturas. Como se compreender o facto dos arquitectos  formados em escolas irem buscar e estudar aquilo que é produzido por leigos?

 É porque o conhecimento não passa só pelo científico, nós temos também o conhecimento empírico e erudito, portanto esta  arquitectura que é  feita pela população  em função das necessidades e das respostas que são necessárias dar á um determinado problema, e por isso é que resulta. Portanto,  devemos seguir a postura do local pois a população organiza a sua vida de forma a que resulte bem dentro das suas limitações do local e é exatamente a grandeza desta manifestação que nós, as academias vamos buscar e dar outro formato e ajustar às novas tecnologias e tendências.



Casa em adobe e cobertura de capim na Caotinha/Benguela(Fonte: Google) 
 


"Arquitectura sem arquitectos" um comentários...

Nós temos no  Egipto Assan Fathi que é o grande mestre da arquitectura sem arquitectos, tem publicação feita, portanto....

Mas Assan Fathi é uma pessoa com formação específica  em arquitectura, não é verdade?

Mas trabalha muito com a comunidade e nesta área da "arquitectura sem arquitecto", ou seja, ele vai beber e buscar as  referências das pessoas que constroem o seu espaço (e é um grande homem). O que, na realidade,acho que  nós devemos ter como orientação é exactamente isto, bebermos da fonte, e a fonte é quem consegue fazer de acordo com o que tem no local e depois ajustar de acordo com a nossa academia.

Acha que para levar qualidade ao espaço rural temos que transformá-lo em urbano?

 O quê  é  isso de urbano e o quê é rural? Porque na realidade nós estamos numa aldeia...vou contar-te uma historia: Quando estivemos no Dundo, verificamos que há um quadro que é comum em Angola, para quem viaja para o sul ou para o norte, o que é que nós verificamos? Alguma alteração ao nível dos elementos de construção, ou seja, antigamente eu era pequena, meu pai era topógrafo, e com alguma regularidade nós íamos para as zonas rurais e depois metíamo-nos  pelo mato, e as casas eram feitas em pau-pique ou adobe e   tinham cobertura em capim sempre, neste momento nós  verificamos que grande parte das casas já não têm mais cobertura de capim, mas em chapas metálicas e isto já altera um pouco a vida mas mostra que há alguma transformação, e quando perguntamos o que as pessoas diziam e constatamos o seguinte: A solidariedade da aldeia já se está  a perder. Com a tradição a casa era construída pelo utilizador, pelo casal e pelos familiares que ajudavam a ir buscar o capim e  a prepara-lo etc, portanto era um trabalho da comunidade, neste momento com ausência/ défice da solidariedade já fica mais difícil ao casal recém-formado sozinho ir buscar o material, e portanto o mais fácil para evitar algum desconforto da entrada de água, que é o grande problema neste tipo de cobertura, é ir buscar a chapa metálica , porque uma ou duas pessoas conseguem transportar numa carrinha pequena de alguma forma mais facilitada e colocam as chapas, como solução.

Ora bem, o que é que eu quero dizer com isto? Não é pelo facto da casa ter a chapa quese está a tornar a zona urbana , está é haver alguma distorção em todos aquelas componentes da aldeia, agora é preciso atribuir alguma qualidade à própria aldeia, nem sempre é fácil atribuir esta qualidade e mantê-la ainda com alguma característica rural, mas acho que o importante não é dizer  "vamos deixar de injectar qualidade na aldeia para que ela se mantenha rural", porque se o rural é não ter qualidade então nós vamos deixar de ser rural, não é o caso, é  manter todo uma série de posturas da própria aldeia que lhe atribui esta denominação e essa característica, agora é preciso atribuir e injectar mais qualidade. Nós tivemos nas aldeias,  temos um trabalho feito ao nível de projectos e depois será materializada à nível da edificação que é uma amostra de uma aldeia tchokwe que ficará um museu e é preciso perceber como é que em determinada altura nós conseguimos melhorar a qualidade da aldeia mas sem alterar a sua essência, porém  aí é que está o busílis  da  questão, que  acho não se tem conseguido.  Ainda há  dias falei com uma instituição em Malanje que está a fazer vilas rurais ou agrovilas, nós por acaso nos disponibilizamos para fazer algum trabalho, estamos à espera, mas do pouco que temos visto tem sido o transporte do que se faz na cidade para o campo, e portanto isto não resolve, não responde, está desajustado, completamente desenquadrado e porque perdemos a nossa característica e a nossa essência,   é um aspecto que tem servido de reflexão nas escolas, e para quem encomenda e para os próprios governantes.

Estando numa escola de arquitectura, não acha que já era altura de começarmos a pensar na formação em urbanismo só do primeiro ao quinto ano? Como docente qual é a sua opinião?

Eu acho que em arquitectura, se calhar, não concordaria muito com vias completamente independentes, é a mesma coisa como dizer assim: o médico vai diretamente para a psiquiatria. Eu acho que devia haver um tronco comum até ao terceiro ano, e depois aí sim....
 
   
        Filomena do Espirito Santo no Departamento de Arquitectura-UAN(Foto: C. Martinho)

...Muitos arquitectos defendem esta ideia, mas na hora de formar uma equipa multidisciplinar para trabalhar num plano urbanístico temos dificuldades imensas, porque um ou dois anos de urbanismo parecem não ser suficientes.

O curso de arquitectura aqui tem  5 anos, três de tronco comum e depois os outro dois, quem vai para o urbanismo e planeamento, o pendor é só planeamento o outro é só arquitectura...

Mas o resultado disso, o produto que vem das escolas, responde a necessidade de pessoas que estão talhadas para trabalhar a cidade?

Não, não estamos. Os que estão fizeram especialidade fora, pós-graduação. Porque na verdade as nossas escolas(as que eu conheço) estão muito vocacionada para arquitectura, com um pendor para o planeamento mas muito "ao de leve", mas eu acho que é uma necessidade grande, precisamos planificar as nossas cidades de acordo com as nossas necessidades!

 Que dizer da produção de bibliografia  por parte dos arquitectos angolanos?

Isto é que é pior, passa-se mal. A primeira geração de arquitectos devia dar a mão à palmatória, na qual eu me incluo, porque passamos a vida a dizer "vamos publicar"  mas não se publica nada. Na realidade as referências de bibliografias que os nossos alunos têm são do exterior, do ocidente,  acho que cada vez mais nós temos que apostar em escrever e em produzir conhecimento. Não estou a justificar de maneira nenhuma. Realmente temos que começar a faze-lo, nós temos que começar a organizar –nos melhor no sentido de termos isto como um objectivo a atingir, acho que as nossas escolas, particularmente a universidade Agostinho Neto e falo do Departamento de arquitectura, precisa de  contribuir para que isto aconteça rapidamente e para que não fique só ao nível da vontade, mas da materialização também, portanto  passarão uma série de situações que não adianta focar aqui, mas  sabemos que temos que contribuir para que isso possa ser feito.



    Edifício da EDEL um projecto da arquitecta Ana Torres(Foto: Arquitectura moderna ignorada/Google)
 

Com que arquitectos é que se identifica?

Ao nível local, sem dúvidas  que vou me identificar com as referências daqui da praça e começo logo com Vasco Viera da Costa,  enquanto  produtor de arquitectura e mestre, e eu  pessoalmente trabalhei com ele(mas foi coisa pouca),  quando entramos para universidade, depois que  passamos para o segundo ano entrei como monitora e havia um gabinete de estudos e projectos onde resultou o projecto deste pavilhão(departamento de arquitectura), e trabalhávamos com  o arquitecto Viera da Costa que era o coordenador do GEP. O arq. Vieira da Costa era uma pessoa muito recolhida, se calhar um bocado tímida, era muito fechado em si, portanto  não apresentava muitas situações de manifestações de euforia.

Edifício do LEA(Laboratório de Engenharia de Angola), obra de Vasco Vieira da Costa
 
Ainda em Angola há  uma arquitecta que merece uma consideração extrema porque é uma seguidora de Vasco Vieira da Costa  que é a arquitecta Ana Torres, projectou o edifício da EDEL , e depois temos outros, como  habitação e outras amostras de arquitectura que serviram sempre de referência também.

Há um arquitecto do Brasil que eu gosto e que me serve de referência sob o ponto de vista da abordagem do que é fazer arquitectura, que eu chamo "boa arquitectura" porque é adaptada ao clima, à geografia, dá resposta às necessidades e às exigências que é o arquitecto João Figueiras Lima(Lelé). Há  dois exemplos que eu sempre indico para os alunos quando eles começam a fazer um trabalho, um que é a estação ambiental numa zona do Brasil, e outra que são dos hospitais que me servem de referência e que realmente são uma amostra do que é fazer arquitectura, que é responder às necessidades a que nos propusemos. Há outras referências internacionais mas estes marcam-me porque consigo tirar boas referencias e beber para aplicar na minha produção, para resultar bem.

 Obra do arquitecto brasileiro Lelé







                                                                         

Há uma crítica à primeira geração de que a senhora é uma excepção. Diz-se que a maior parte dos arquitectos desta geração foi para academia ou outras áreas mas não trabalham em projectos.

Trabalham sim. Da nossa turma saíram  arquitectos brilhantes, o arquitecto Carlos Costa é tipo um Viera da Costa, onde ele está ninguém se apercebe, porque ele é uma pessoa muito tranquila, não dá nas vistas, mas é um bom arquitecto. O arquitecto Augusto dos santos, também trabalha na profissão em projectos, ele é uma pessoa privada e muito restrita. Eu acho que às  vezes também  o que acontece é que há pessoas que aparecem e não se faz nada,  quando os outros estão a fazer uma grande produção mas que fica muito resguardada. A propósito desta sua pergunta acho que vou lançar um  repto aos colegas da primeira geração, para fazermos uma exposição e uma publicação do que já produzimos. 
Mas esta questão da produção depende também um pouco do engajamento e das ligações, estou a dizer isto porque qualquer alteração que haja num Ministério ou num Governo nós enviamos cartas a dizer assim: "estamos aqui, temos disponibilidade de trabalho, depois depende de vocês". Há concursos nós enviamos , mais mesmo assim o contacto de outra parte e a resposta é quase nula porque todo sistema de entrega de encomenda é feita de uma forma algo distorcida e portanto, às vezes surgem